Palavras de Chase Iron Eyes Informações atualizadas de 24 de fevereiro sobre Standing Rock

(Leia abaixo a transcrição parcial da fala de de Chase Iron Eyes)
“Olá meus parentes. Aqui é Chase Iron Eyes. Estou atualmente na Dakota do Norte. Vim para um lugar que tem Wireless para que eu possa fazer uma transmissão ao vivo (live feed), só dar uma atualizada no que aconteceu desde 22 de fevereiro que foi a data que o governo e o aparato repressor da Dakota do Norte decretou para expulsão (despejo) do acampamento de Oceti Sakowin, o campo ao norte do rio Cannon Ball, que está num território reinvindicado com base em um tratado, com apoio de leis internacionais, com base no tratado de 1868 e 1851 como muitos de vocês sabem. O acampamento foi limpo, as últimas detenções foram feitas. Em torno de 40 pessoas foram presas nas últimas 48 horas, ontem, 23 de fevereiro.

Nós estamos por aqui hoje, está muito frio, mas os pontos de checagem (check points) seguem de pé. Ao sul do acampamento, o BIA (Bureau de Assuntos Indígenas) montou pontos de checagem para limitar o acesso, para impedir mais pessoas de chegarem nos locais dos acampamentos.

Sempre que falo, me refiro a geografia:

http://wikimapia.org/#lang=pt&lat=46.390280&lon=-100.609188&z=13&m=b&search=Cannon%20Ball

O acampamento Oceti fica a norte do rio Cannon Ball, existem três acampamentos que ficam ao sul desse rio, eles são o acampamento Sacred Stones que foi o primeiro a ser montado em 2 de fevereiro de 2016. Havia o acampamento Rose Bud, e havia o acampamento Black Hood.

O acampamento Rose Bud foi destruído em uma operação do BIA e sua força policial, que é uma polícia federal indígena que tenta empurrar para algumas reservas as leis federais.

Existe um grande equívoco, você olha pra eles e eles são indígenas, e veja, elas são policiais, são wichita,  Ao invés de defender as leis federais, deveriam proteger as ordem que é proteger a Mãe Terra, de proteger a sacralidade de nossas reservas de água. Mas não funciona assim: A BIA fa parte do Departamento de Interior, e costumava fazer parte do Departamento de Guerra. A BIA colaborou com agentes do Departamento de Alcool e Drogas, e com o FBI. Eu não vejo ninguém com identificação do FBI durante a invasão, mas eles estão por todas as partes na reserva porque eles mantêm jurisdição sobre crimes maiores em terras indígenas.

Os pontos de checagem seguem de pé indo aos acampamentos do norte da reserva das sete nações. E o bloqueio de estrada mais militarizado da história da Dakota do Norte é o da ponte de Blackwater, lugar do Incidente de Desafio, e do Incidente de Susy. Tem sido lugar de muitos enfrentamentos com feridos, muitas violações de direitos. Foi onde usaram canhão de água em 20 de novembro. Muitos incidentes que são importantes de serem levados em conta. Este bloqueio ainda está de pé.

Lembram de todas as negociações com o governador do estado, em que eles disseram que a estrada estaria aberta aberta para os manifestantes? Mas eles nunca liberaram essa ponte até o oleoduto estar concluído. E nós ficamos sabendo hoje, por parceiros da companhia de transmissão energética, foi que o disseram, as escavações estão concluídas. Eu não sou especialista, eu não sei quando Trump disse que levariam algum tempo para escavar, já deve ter dado tempo suficiente para escavarem por baixo do rio e sair do outro lado. Estão prontos para instalar os tubos. Isso quer dizer que estão escavando desde janeiro.

No acampamento dava para ouvir, dava pra sentir o solo tremendo, dava pra saber que isso estava acontecendo.

(Transcrição temporariamente interrompida em 5min27)

Aparato de guerra no segundo dia de remoção do principal acampamento contra o oleoduto em Standing Rock

Cam 1 – Eviction of Main #NoDAPL Camp, #OcetiSakowin camp in North Dakota. Support our work here: http://www.unicornriot.ninja/?page_id=211

Posted by Unicorn Riot on Donnerstag, 23. Februar 2017

Outra vez a mídia alternativa Unicorn Riot registrou imagens do aparato de guerra que invadiu Oceti Sakowin – o principal acampamento contra a construção do oleoduto em Standing Rock – na tarde de ontem.

Uma vez mais – no segundo dia de remoção do acampamento – casas e cabanas foram incendiadas em cerimonias, barreiras foram destruídas por tratores. Dezenas de pessoas que se recusaram a abandonar o acampamento foram presas.

Fonte: Unicorn Riot

 

(Abaixo a cobertura do grupo de mídia Unicorn Riot)

Militarized Force Executes Eviction of Main #NoDAPL Encampment

Cannonball, ND – After nearly a year of struggling against the Dakota Access Pipeline’s construction underneath the Missouri River, water protectors are now scheduled to be evicted from their main encampment. [Watch our LIVE updates below]

UPDATE Thursday, February 23rd, 11:45AM: A large militarized force has moved into the Oceti Sakowin main camp. We are streaming live on “Cam 1” which is embedded below, or directly on Livestream here. Armored vehicles and riot police are moving around the camp, as many camp participants and medics have evacuated across the frozen Cannonball River to the Rosebud Camp.


As of Wednesday afternoon, the encampment, on unceded Fort Laramie Treaty land and maintained by the Army Corps of Engineers, has a few hundred water protectors still holding steady as the eviction looms.

Ceremonial fires have been raging throughout the snow-filled morning.

For our LIVE feeds from the muddy encampments, see below. If we are not live at the moment, click into the ‘event posts’ (play button) on the top right of the stream for today’s videos.

We spoke with an Indigenous elder in the late morning who talked about passively resisting the scheduled eviction, saying,

We have no intentions on leaving, we are standing on our 1868 Fort Laramie Treaty rights, we are taking an 1868 Fort Laramie Treaty stance and we are legitimate 1868 Fort Laramie Treaty representatives. For my people out there, we stand for you, and water.”

Watch the interview below:

He further stated,

This is a sacred site and we are protected by federal statutes … forcefully removing us from treaty territories is another violation. Again, we are here in peace and prayer, we are supposed to be protected and we’re not. We’re going to resist, and it’s passive resistance, we’re not going to fight them. At the same time, we’re going to be praying for them and their families for this water, that they need, that we all need.”

With less than an hour before the set eviction time of 2 p.m., many water protectors marched south out of camp towards the Cannonball bridge as more fires burned.

With less than ten minutes before the scheduled eviction, the north gate into camp was blocked with metal barricades and the security shack was lit afire.

The scheduled eviction time of 2 p.m. came and went with no loud announcements by the police. Since then, groups of water protectors and law enforcement have had discussions on Highway 1806.

More wood structures were lit on fire after 2:30 p.m. CST.

A video update from 2:50 p.m. shows fires still raging across camp with a small amount of water protectors left, riot squads readying on Highway 1806, and the media taking it all in.

After an hour and a half past the scheduled eviction time, police still had yet to enter camp and Army Corps representatives stated that they are scheduled to clean the camp at 9 a.m. tomorrow.

Watch the conversation with the policy advisor for Governor Burgum that happened on Highway 1806 around 3:30 p.m. below:

A bit after 4 p.m. CST, police officers led by the Wisconsin State Patrol started to make arrests of people on Highway 1806, including a Rabbi, legal observers, and journalists.

The person seen in the above picture being tackled by Wisconsin State Troopers and Morton County Sheriffs has been identified as Eric Poemz. While he was attacked he was livestreaming through his Facebook and can be heard screaming in pain after being tackled to the ground and saying he thinks his hip is broken.

There have been 10 arrests so far today according to Dennis Ward from Aboriginal Peoples Television Network.

At about 5 p.m. there was an update given by two water protectors who were acting as the police liaisons.

There’s no negotiating anymore, there’s no ceremonies, they’re just gunna come and arrest. But they’ve given us one last opportunity to say ‘hey we want to leave’ and if we leave then we won’t get arrested.”

They went on to say that the Army Corp of Engineers won’t be entering the camp to do any cleaning until the area is clear of people.

There’s concerns about a group in here that wants to kill the cops. They think there’s some kind of group in here, I have not seen any group like that, but they think there is.”

Meanwhile mainstream media ABC has been allowed to stand with the police and will not be arrested.

 

 

KFYR-TV, a local NBC and FOX affiliate for the Bismarck-Mandan and Dickinson, North Dakota region, was live for a press conference with North Dakota Governor Doug Burgum, Morton County Sheriff Kyle Kirchmeier, and other state and Army officials about today’s eviction.

It’s our desire that people leave voluntarily from the camp and at 9 o’clock tomorrow morning. It’s our intention in a coordinated way again with the state of North Dakota, Standing Rock Sioux Tribe, Army Corp of Engineers, to enter the Oceti Camp and continue the clean up efforts that we’ve begun in the last few weeks.”

Polícia invade acampamento principal de Standing Rock e prende manifestantes

 

Ontem, 22 de fevereiro, no final da tarde, seguindo as ordens de Donald Trump – mais um presidente dos Estados Unidos fantoche de mega corporações – um aparato policial de guerra atacou o acampamento Oceti principal na terra indígena Lakota Sioux de Standing Rock.

A polícia cercou a área e tropas de choque ultrapassaram as barreiras erguidas para proteger o acampamento. Nas imagens dos vídeos, nove pessoas, protetores da água – indígenas, ativistas e ambientalistas foram presos. Tipis e outras construções foram incendiados em cerimonia de tristeza e revolta.

Um avião foi utilizado para censura, com um dispositivo que interfere no sinal de celular dos acampados. A tentativa de censura não deu certo. Centenas de registros audiovisuais estão sendo colocados na internet evidenciando a invasão das terras pelo aparato repressor a serviço das petroleiras, e toda brutalidade policial.

Indígenas se mobilizam contra terceirização da Sesai

Secretaria Especial da Saúde Indígena é cobiçada por aliados de Michel Temer desde o ano passado. Mobilização de hoje reuniu lideranças de várias etnias e lotou o auditório do Ministério da Saúde. Novo gestor prometeu não extinguir serviços.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) promoveu a #OcupaSESAI nesta quarta-feira (22). A ação teve o objetivo de impedir retrocessos na Secretaria Especial da Saúde Indígena (Sesai), que pretende ser usada como moeda de troca por Michel Temer em negociações com políticos aliados. Ano passado tentaram extinguir a secretaria. Dessa vez, é a possibilidade de terceirização dos serviços prestados que mobilizou mais de 20 etnias indígenas no Ministério da Saúde. Cerca de 300 homens e mulheres lotaram o auditório do prédio.

De acordo com Takwyry Kayapo, presidente do Conselho de Saúde Indígena, o governo de Michel Temer não tem conversado com as lideranças indígenas nas tomadas de decisões, “apenas atendendo aos interesses das bancadas no congresso, como a bancada ruralista”, afirmou. Para ele, “a política de saúde indígena virou um balcão de negócios e não concordamos com esse modelo de gestão”, em referência à distribuição de cargos sem levar em conta características técnicas para exercício das atribuições previstas.

O novo titular da Sesai, Marco Antonio Troccolini participou da reunião no auditório e disse que a sua presença “atende a uma solicitação feita pelas lideranças indígenas e esta pretende ser uma das características da minha gestão”, ressaltando que mesmo ainda não tendo tomado posse, deseja manter um canal de diálogo com as várias etnias dependentes do trabalho da secretaria. Troccolini também prometeu “manter aquilo que está funcionando bem”, insinuando não interromper serviços tidos como fundamentais pelas populações.

Sonia Guajajara reiterou que “a sesai não é moeda de troca para acordos políticos. Vocês não podem deixar de considerar nossa opinião na secretaria. Não vamos aceitar negociatas políticas em detrimento da saúde Indígena”, pedindo para que interesses pessoais de deputados não interfira na condução das políticas públicas do setor.

Mesmo com as promessas do novo gestor, a articulação dos povos indígenas exigia uma reunião com o ministro e secretários da presidência, para reclamar das nomeações que “vêm direito da Casa Civil, sem serem negociadas com as nossas lideranças”, afirmou Takwyry Kayapo. Ao final da tarde, uma audiência na Casa Civil foi obtida pela Apib.

No ano passado, uma grande mobilização indígena em todo o Brasil conseguiu barrar o desmonte de algumas políticas públicas que estavam na mira do governo que se instalou no poder após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Daquela vez, conseguiram impedir os retrocessos. A ação de hoje mostra que os povos originários continuam atentos aos seus direitos.

A Mídia NINJA acompanhou o ato de hoje com duas transmissões ao vivo. Confira nos links abaixo:

Apoiadores dos Protetores da Água contra o oleoduto em Terras Sioux realizam ação solidária

Diálogos sobre o Movimento Zapatista e as Autodemarcações no Tapajós

O evento ocorrerá no Instituto de Ciências e Tecnologia das Águas (ICTA) da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), em Santarém, dia 2 de março. Ele contará com Ana Paula Morel (doutoranda – Museu Nacional/UFRJ),  Karo Munduruku (estudante – UFOPA, Movimento Indígena Munduruku) e Poró Borari (estudante – UFOPA, Liderança Borari Baixo Tapajós).

 

ufopa debate sobre autonomia

Fonte: Índio É Nós

‘Nós queremos produzir e viver na cultura’: a vida na retomada dos guaranis no litoral norte do RS

Os guarani mbya constroem a casa de reza na entrada do acampamento da nova aldeia, dentro da área da Fepagro | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Fernanda Canofre

Dois quilômetros de caminhada e a Mata Atlântica vai se fechando cada vez mais pelo caminho. A estrada, que permite a entrada de carros até metade do trecho, vira um trilho onde só os pés podem seguir. Um pouco mais adiante, à esquerda, um galho atravessado entre duas árvores, indica o ponto onde virar. São mais uns 100 metros de mata até os olhos chegarem à clareira onde 80 indígenas Mbya Guarani constroem o acampamento da retomada de suas terras, com a casa de reza, construída com barro fresco, guardando a entrada da nova tekoá.

No centro do acampamento de barracas, a lona preta – tão comum às margens de rodovias gaúchas – aqui abriga homens, mulheres e crianças da chuva de verão que cai no fim da tarde, no meio de um pedaço remanescente de floresta. A música da rabeca, a panela cozinhando milho, o cheiro do fumo que sai do cachimbo e da lenha que queima são os guaranis voltando à terra como a conhecem desde sempre.

A aldeia recém-nascida está localizada dentro da área da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), em Maquiné, no litoral norte do Rio Grande do Sul. No final da tarde do dia 27 de janeiro, cerca de 30 famílias indígenas, vindas de Barra do Ouro, Varzinha e de um acampamento da zona rural de Maquiné, ocuparam o local pacificamente, buscando as terras que foram de seus antepassados.

O Cacique Cirilo é o único apontado em processo de reintegração de posse movido pela Procuradoria Geral do Estado | Foto: Guilherme Santos/Sul21

“Maquiné já é a língua guarani. É como capim. Fizemos a retomada de várias regiões aqui, porque o passado aqui é dos guaranis”, explica o Cacique Cirilo Morinico. “No passado, território indígena, [agora] foi criando propriedade privada, com cerca. Estamos enfrentando isso hoje porque, nossos futuros guaranis, que ñanderú, nosso criador na Terra – ñanderú é como chamamos Deus – foi criando Terra para viver da nossa cultura, nossa tradição”.

Os indígenas dizem que a área tem “tudo preparado para viverem ñande reko”, como chamam o modo de vida guarani. A maioria das famílias que participam da retomada em Maquiné vivia até agora em terras não-produtivas, algumas demarcadas pela Funai (Fundação Nacional do Índio), como é o caso de terra Campo Molhado, ou à beira de estradas. Cacique Cirilo conta que nas terras onde os colocaram o plantio era difícil. “É um processo de luta, de sofrimento. Você vai na área demarcada, não produz milho e não tem a comida típica, como vai sobreviver ali? Não produz porque é muito frio. Então, na verdade, tudo isso é sofrimento. Nós precisamos terra boa também para produzir, para ter alimentos, para as crianças se sustentarem (…) aqui a terra não é lavrada, aqui é bem produtiva”.

Na área do governo do Estado, eles encontraram terra fértil e rios, chás e remédios para curar todo tipo de doença, velhos conhecidos dos guaranis. “A minha filha, que tem 6 anos de idade, tomou banho de rio pela primeira vez aqui. Porque onde nós moramos a água vem de caminhão pipa. Enquanto os filhos de vocês podem frequentar os melhores balneários, os melhores clubes, o nosso povo, que é originário dessa terra e que caminhou muitos anos nessa terra, tem sido jogado fora”, diz Merong Tampuramã, índio Pataxó Hãhãhãe, casado com uma guarani, que vive em Erebango, no noroeste do Rio Grande do Sul.

Os caciques Cirilo e André, junto ao indígena Merong, na entrada da propriedade ocupada | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Governo considera retomada ‘invasão’

A área ocupada pelos indígenas foi adquirida pela Secretaria de Agricultura em 1948. O Estado desapropriou a área de 335 hectares para fins de atividades públicas e indenizou pequenos agricultores, descendentes de alemães, açorianos e italianos, que viviam no local. Na época, o projeto para a região de Maquiné era a instalação de uma estação experimental de pesquisa. Entre o final dos anos 1970 e pela década de 1980, quando o país vivia a chamada “Revolução Verde”, o Centro de Pesquisa de Maquiné chegou a ter 50 funcionários produzindo e trabalhando em estudos. Hoje, são 3 pesquisadores e um funcionário.

Segundo Rodrigo Favreto, engenheiro agronômo que trabalha há 15 anos na Fepagro de Maquiné, por muitos anos o local sofreu por falta de investimentos. Um concurso convocado no governo Yeda Crusius (PSDB) e outros projetos seguidos por Tarso Genro (PT), com verba do governo federal, trouxeram ao centro R$ 1,2 milhão de investimentos em 6 anos. O engenheiro diz ainda que, embora “visivelmente não apareça”, o centro do litoral norte é “o com mais pesquisas da Fepagro”.

Parte da propriedade da Fepagro, retomada pelos guaranis, indica abandono | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Entre os projetos tocados em Maquiné estão pesquisas com frutas tropicais – cerca de 80% da produção de abacaxi e 70% da de banana do estado saem do litoral, segundo ele – de melhoramento genético de feijão, plantas nativas, como a palmeira juçara e a goiabeira serrana e de preservação da Mata Atlântica, com sistemas agroflorestais. Um dos projetos desenvolvidos ali, por exemplo, é o plantio do palmito nativo dentro dos bananais já existentes, para aumentar a produtividade da terra. O projeto é tocado em propriedades rurais da região e Favreto diz que cerca de 20 produtores já estariam licenciados para aplicá-lo.

Em dezembro, a Fepagro foi uma das fundações encaminhadas para extinção no pacote do governador José Ivo Sartori (PMDB). Porém, diferente de outras fundações, com apenas funcionários estatutários, a Fepagro não terá nenhum demitido. Segundo o chefe de gabinete da antiga Fepagro, Arceli da Silveira, “os servidores serão remanejados”. Na prática, ela perdeu a autonomia de fundação e passou a ser Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária, dentro da Secretaria de Agricultura. Desde o início do governo atual, o Centro de Maquiné, já vinha sobrevivendo com corte no custeio. No ano passado, descontando gastos e o que foi produzido na propriedade, o Centro de Maquiné fechou o ano com gasto de R$ 8 mil.

“Não sei até que ponto [os indígenas] sabiam ou não que tinha atividades acontecendo, porque essa mensagem que o governo levou da extinção, mostrou que, ‘bom, vai ser privatizado’”, avalia Rodrigo Favreto. “A gente também não sabe ainda, porque o governo não disse exatamente. Numa carta que mandou aos servidores ele diz: ‘não sabemos ainda o que vai ser em cada um dos centros, não foi decidido ainda’. A gente não sabe qual a intenção do governo para essa área. A nossa intenção, como servidores, entendendo a importância da pesquisa que está sendo feita e que a gente não vai ser demitido, ainda mais considerando esse contexto de Mata Atlântica, a gente entende que a pesquisa deve continuar”.

Os indígenas relatam que, em 20 dias no local, já flagraram caçadores e extração ilegal de palmito, como se fosse hábito na região. “Nós chegamos aqui e estava tudo abandonado, ninguém cuidou. Entramos na mata e estavam cortado o palmito. Mas roubaram. Nós pegamos dois brancos pegando, segurando. Pegamos de surpresa, até ficamos assustados”, relata o Cacique Cirilo.

O engenheiro agrônomo Rodrigo Favreto trabalha no Centro de Maquiné há 15 anos e vive na propriedade com a esposa | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Vivendo na propriedade há 8 anos, junto com a esposa, Favreto diz que foi comunicado pelos indígenas sobre a retomada na mesma tarde em que chegaram. Ele explicou aos guaranis que teria de avisar a Brigada Militar, como um procedimento de praxe. Sem efetivo na cidade, no entanto, os policiais não compareceram ao local. No dia seguinte, os índios ocuparam a sede administrativa da Fepagro por algumas horas. O incidente de um pedaço de vidraça quebrado é citado no relatório da PGE. No mesmo dia, porém, eles se retiraram e instalaram as barracas no mesmo espaço onde estão estabelecidos agora, a 2 quilômetros de distância da entrada da propriedade. O próprio engenheiro diz que, apesar de o grande número de pessoas circulando pela área podendo comprometer pesquisas, a convivência tem sido “tranquila e pacífica”.

“As árvores interessam para o governo? Ou será que ele pretende transformar isso em lavoura de soja, em condomínio fechado? O nosso povo precisa usufruir daquilo que é dele, que é da natureza e precisa estar aqui nesse território como guardião da natureza”, defende o indígena Merong.

Na propriedade, placas em protesto à extinção da Fepagro pelo governo estadual | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Quando a reportagem chegou ao escritório administrativo da Fepagro, na área ocupada pelos índios, Rodrigo estava sentado ao computador redigindo um relatório a pedido do Ministério Público Federal, relatando as atividades desenvolvidas no Centro de Pesquisa de Maquiné. O processo que pede a reintegração de posse da propriedade, da Procuradoria Geral do Estado, cita em vários pontos “pesquisas” e “plantações” que mereceriam “zelo e preservação”, mas não especifica nenhuma delas.

O pedido de reintegração de posse foi entregue na Vara Federal de Capão da Canoa logo após a reunião realizada entre indígenas, o Centro Indigenista Missionário (CIMI), a Secretaria de Agricultura e a PGE. No processo, a retomada é classificada pelo Estado como “invasão” e a Funai e o Cacique Cirilo são apontados como réus. Como provas, a Procuradoria anexou reportagens que noticiaram a entrada dos indígenas na área e fotos retiradas dos perfis de apoiadores e dos próprios indígenas em redes sociais. A PGE pede ainda urgência na retirada dos guaranis do local, alegando que “a situação está se consolidando, sendo que o decurso do tempo só acarretará maiores prejuízos ao Estado, especialmente porque essas moradias terão que ser derrubadas, enquanto que o material nela empregado sequer é recuperável”.

Crianças guarani voltaram a conviver com a natureza dentro da área preservada de Mata Atlântica | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Terra com a proteção de Tupã

A primeira coisa que os guaranis fizeram assim que cruzaram a cerca que marca a propriedade do Estado, foi começar o ritual de reconhecimento entre eles e suas terras. Os cânticos dos indígenas, logo se encontraram com os dos pássaros da Mata. Assim eles sabiam que eram aceitos, como se um acordo entre eles e a natureza estivesse firmado. Em seguida, pediram a Tupã por um nome para a nova aldeia e por proteção. O nome ainda não se revelou. Mas ele vem, acredita o Cacique.

Os guaranis eram um dos povos tradicionais da região do litoral norte gaúcho. Antes da chegada dos portugueses, o Brasil chegou a ser território de 1,5 milhão de guaranis. Pelo menos seis vezes mais do que o número calculado no século XVI, quando o genocídio de seu povo teve início. Foram dizimados na proporção de 1 sobrevivente para cada 500 mortos. “O tronco indígena que mais contribuiu para o Brasil”, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro. Hoje, a estimativa é de que existam no país 7 mil Guaranis Mbya.

Em geral, as aldeias guaranis são jovens. Condições precárias de vida e falta de políticas colocaram o povo indígena sob ameaça, especialmente nas últimas décadas. Na aldeia formada dentro da Fepagro também é assim. É difícil encontrar entre eles alguém que aparente mais de 30 anos ou tenha cabelos brancos. Apesar de as mulheres não falarem português, como os homens, no trabalho a divisão é igual. Homens e mulheres vivem em condição de igualdade dentro da aldeia.

Poty se diz “feliz” na nova terra | Foto: Guilherme Santos/Sul21

Uma delas, Jaxuka Poty, cercada pelos 4 filhos, que só conheciam a vida dura de uma terra sem plantio, parece feliz com a ideia de futuro ali. “Eu estou feliz por estar aqui em meio a floresta. Eu vejo os rios e o som dos pássaros, a terra é fértil para o plantio, estou muito feliz por estar aqui com meus filhos, com essa construção da Casa de Reza, e a gente acredita que nosso Deus Tupã abençoará essa retomada”, diz em um guarani manso, traduzido por um companheiro de aldeia, enquanto ela ceva o cachimbo.

O Cacique da terra de onde veio Poty, na zona rural de Maquiné, André, abre o sorriso para dizer que “tudo já mudou para melhor”. “Criança tem que cuidar toda hora, de carro, de violência, mas chegando aqui muda totalmente”, diz se desculpando por ainda estar aprendendo o português.

No caminho até a aldeia, André conta satisfeito que vê os quatro filhos e as duas filhas retomando um contato com a natureza, do qual seu povo foi se afastando. “Aqui retomamos área, mas não é só área que estamos retomando. Estamos resgatando nossa cultura que está parada há muito tempo. A sociedade fala que os povos guaranis estão perdendo sua cultura, mas não estamos perdendo, apenas não temos condições de continuar. Todas as aldeias são pequenas, não tem remédio, não tem fruta nativa, não tem como seguir com nosso modo de viver. Nós [aqui] estamos felizes, temos alegria com as próprias pessoas e com a natureza”.

Enquanto ele termina de falar, o milho segue cozinhando, a cobertura do telhado da Casa de Reza já está quase completa e as crianças cantam e dançam lado a lado para fechar outro dia. Apesar do que dizem os documentos e mesmo com ação de reintegração de posse sendo colocada em curso a quilômetros dali, debaixo da lona preta, os pés deles lembram que a terra é guarani.

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

Foto: Guilherme Santos/Sul21

 

Fonte: Sul21

 

Guarani Mbya retomam área tradicional em Maquiné

(Abaixo parte da matéria de Ana Maria Barros Pinto para o Jornal Já)

Surge uma nova aldeia Guarani Mbya no RS, em uma área de mata atlântica na Estação da Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), em Maquiné (litoral norte). Um grupo de cerca de 80 pessoas – adultos, jovens e crianças- entraram pacificamente na área no final de janeiro e fizeram um acampamento, na ação que eles chamam de retomada.

A área de 367 hectares é reivindicada pelos Mbya em nome da ancestralidade. “É território dos nossos antepassados guarani, somos um povo e queremos respeito às nossas tradições e cultura”, diz o cacique Andre Benites. Ele conhece bem a região: cresceu por ali, em situação precária, assim como outras famílias, plantando em pequenos pedaços de terra cedidos por moradores. Começaram a organizar a retomada assim que souberam da extinção da Fepagro, através de projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa em dezembro de 2016.

A opy, casa onde são realizadas as rezas, é tradicional nas aldeias

Grupo já construiu um opy, casa onde são realizadas as rezas, tradicional nas aldeias

Nessa terra, explica o cacique André Benites, há mata nativa com frutas silvestres, terra boa para o plantio de alimentos e remédios (ervas medicinais) e um rio. Ou seja, os recursos naturais que permitem o manejo das espécies tradicionais da cultura guarani estão preservados. A retomada é também uma reação ao descaso dos governos, que Benites define assim: “Estamos esquecidos na beira de estradas, vivendo em acampamentos precários. Queremos viver com dignidade, que o Governo reconheça isso”.

O cacique Cirilo Morinico, da aldeia Anhetenguá, da Lomba do Pinheiro em Porto Alegre, se juntou ao grupo

O cacique Cirilo Morinico, da aldeia Anhetenguá, da Lomba do Pinheiro em Porto Alegre, se juntou ao grupo

O cacique Cirilo Morinico, da aldeia Anhetenguá, da Lomba do Pinheiro em Porto Alegre, se juntou ao grupo pela conquista da tekohá (terra, aldeia). Com voz tranquila e pausada, como é característica deste povo, Cirilo fala que os guaranis são orientados por Nhanderu (Deus) e têm esperança na retomada. “Queremos mostrar para a sociedade que o nosso povo tem tradição, espiritualidade, uma cultura que tem de ser preservada. Hoje vivemos em pequenas áreas, como passarinhos cercados. Aqui no nosso território ancestral tem vida”.

A retomada teve vários desdobramentos: os mbya foram chamados para uma audiência na sede do Ministério Público Federal de Capão da Canoa, no dia 3 de fevereiro, onde reiteraram aos procuradores os motivos da decisão de retomar o território ancestral guarani. A disposição é de resistir; a palavra é negociação. Aguardam o despacho do juiz federal marcando audiência. No âmbito estadual, há uma ação de reintegração de posse feita pela Procuradoria Geral do Estado, mas sem pedido de liminar. Será marcada uma audiência.

Fonte: Jornal Já